“Isso poderia ter sido o começo de um fim”, reflete Andréa Martinelli sobre câncer de mama
Diagnosticada aos 36 anos, a editora-chefe da CAPRICHO conta como uma pequena alteração na axila levou à descoberta de um tumor
Andréa Martinelli precisou marcar quatro vezes a mesma ressonância magnética até finalmente conseguir realizar o exame. Entre reuniões, fechamentos de edição da revista e as responsabilidades como editora-chefe da CAPRICHO, a jornalista acabava chegando atrasada e precisava remarcar. O pedido médico já estava com ela há cerca de um ano e meio, mas, como tantas mulheres acostumadas a cuidar de tudo e de todos, sua própria saúde acabava ficando para depois.
Quando finalmente fez o exame, entre junho e julho de 2025, descobriu algo que não esperava: um pequeno nódulo na mama direita, que sequer conseguia sentir pelo toque. Poucas semanas depois, aos 36 anos, Andrea recebeu o diagnóstico de câncer de mama em estágio inicial.
“Eu não priorizei a minha saúde”, reconhece, em entrevista à CLAUDIA. Hoje, aos 37 anos, depois de uma cirurgia, 18 sessões de radioterapia e ainda em tratamento hormonal, ela conta como a descoberta da doença a obrigou a rever não apenas a rotina, mas também o lugar que ocupava na própria vida.
Uma bolinha na axila e uma descoberta inesperada
Tudo começou com uma pequena alteração que Andréa conhecia desde a adolescência. Uma bolinha na axila, antes praticamente imperceptível, passou a inchar durante o período menstrual e provocar desconforto.
Inicialmente, ela procurou uma endocrinologista, que solicitou uma ultrassonografia. O exame não identificou nenhuma alteração que explicasse o incômodo. Ainda assim, seguiu mencionando o assunto nas consultas, até que sua ginecologista decidiu aprofundar a investigação. “Eu acho que teve um olhar atento dela, no sentido de ouvir a paciente”, lembra.
A médica solicitou uma ressonância magnética das mamas, mas Andréa demorou um ano e meio para realizá-la. Nesse período, as demandas profissionais pareciam sempre mais urgentes. Foi apenas em maio de 2025 que decidiu colocar os exames em dia.
A ressonância trouxe uma surpresa: a bolinha da axila continuava sem explicação, mas um pequeno nódulo havia aparecido na mama direita. Em 8 de agosto, realizou uma ultrassonografia de confirmação e uma biópsia, que identificou um carcinoma mamário invasivo. “A gente nunca acha que vai acontecer com a gente”, diz a jornalista, que não tinha histórico familiar de câncer de mama e, até então, nunca havia feito uma mamografia.
Curiosamente, a alteração que motivou toda a investigação não tinha relação com o tumor: tratava-se de uma mama acessória, tecido mamário localizado na axila, que também pode responder às mudanças hormonais do ciclo menstrual.
Foi justamente a insistência em investigar aquele incômodo que a levou à descoberta precoce da doença.
Um tumor de menos de um centímetro
O câncer identificado na mama direita media apenas 0,75 centímetros. Embora apresentasse um índice de proliferação celular relativamente elevado, o tumor foi descoberto antes de atingir os linfonodos examinados, o que representava uma condição favorável para o tratamento.
Andréa, então, passou por uma setorectomia, cirurgia que remove apenas a região da mama onde o tumor está localizado, preservando o restante do tecido mamário. Depois, realizou 18 sessões de radioterapia e iniciou o uso de Tamoxifeno, medicamento que deverá tomar por cinco anos para reduzir o risco de recorrência.
Casos como o dela reforçam a importância do diagnóstico precoce. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), identificar a doença em seus estágios iniciais pode aumentar as possibilidades de tratamentos menos agressivos e melhorar as chances de sucesso terapêutico. Para Andréa, a experiência também mostrou a importância de encontrar profissionais dispostos a ouvir as preocupações das pacientes. Ela atribui um papel fundamental à ginecologista e à mastologista que a acompanharam, destacando a sensibilidade com que suas queixas foram acolhidas.
A descoberta, no entanto, trouxe sentimentos que nenhum resultado favorável de exame seria capaz de eliminar. “Eu me senti muito frágil, com muito medo e muito perdida”, recorda. Acostumada a buscar respostas, encontrou na informação uma maneira de lidar com a incerteza. Conversou com os médicos, procurou compreender as características do tumor e buscou apoio em outras mulheres que já haviam enfrentado a doença.
As mudanças no corpo e uma decisão sobre a maternidade
O tratamento também a colocou diante de questões que iam muito além do câncer. Aos 36 anos, ela precisou decidir se queria preservar a possibilidade de ter filhos no futuro. Embora nunca tivesse sonhado com a maternidade, sabia que o tratamento hormonal poderia interferir em seus planos reprodutivos; por isso, decidiu congelar os óvulos antes de iniciar essa etapa do tratamento.
O procedimento foi realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no Hospital da Mulher, antigo Pérola Byington, em São Paulo. Ao todo, nove óvulos foram congelados. Apesar do acolhimento recebido, Andréa descreve a experiência como uma das etapas mais difíceis do processo. A estimulação hormonal e a recuperação da coleta provocaram dores e desconfortos intensos.
No mesmo dia do procedimento, ela tinha uma consulta no serviço de radioterapia e acabou desmaiando na entrada do hospital. “Foi um processo muito dolorido”, conta.
A experiência também a fez perceber que não conseguiria atravessar o tratamento mantendo o mesmo ritmo de antes. A relação com a própria imagem foi outro desafio. Ela conta que sempre teve inseguranças em relação aos seios e que, durante a adolescência, chegou a desejar colocar silicone para se aproximar dos padrões de beleza da época.
Com o diagnóstico, precisou olhar para essa parte do corpo de uma maneira completamente diferente. A radioterapia deixou a pele sensível, com alterações semelhantes às de uma queimadura, exigindo cuidados constantes. “Eu nunca gostei muito dos meus seios, e fui obrigada a olhar para eles no espelho”, relata.
Aos poucos, o cuidado deixou de ser apenas uma exigência do tratamento e passou a fazer parte de uma relação mais atenta consigo mesma. Andréa também retomou a preocupação com a atividade física e a alimentação, mudanças que, segundo ela, contribuíram para recuperar a autoestima após o diagnóstico.
O desafio de continuar trabalhando durante o tratamento
Durante todo o processo, a jornalista se afastou do trabalho por apenas três semanas. Continuou trabalhando enquanto fazia radioterapia, alternando os compromissos profissionais com as sessões no hospital e os cuidados necessários para sua recuperação.
Mesmo recebendo apoio da equipe e de suas lideranças, sentia que precisava demonstrar que continuava bem. “É muito fácil olhar para uma paciente como eu, que não perdeu o cabelo, não fez uma quimioterapia, e achar que tá tudo bem”, afirma.
A ausência de sinais físicos, geralmente associados ao câncer, fazia com que algumas pessoas não compreendessem a dimensão do que ela enfrentava. Houve momentos em que até mesmo abraços dos colegas se tornaram desconfortáveis devido à sensibilidade na região da mama. Ao mesmo tempo, o trabalho também representava um espaço em que conseguia direcionar a atenção para algo além do tratamento.
Fora da redação, encontrou apoio no namorado, que esteve ao seu lado durante a cirurgia e a recuperação, e nas amigas, que ajudaram a tornar o processo menos solitário. Foi nesse período que começou a compreender a importância de não assumir todas as responsabilidades sozinha.
Aprender a ser prioridade
Mais de um ano depois do diagnóstico, Andréa continua fazendo uso de Tamoxifeno e seguindo as orientações médicas para reduzir o risco de retorno da doença.
Embora tenha recebido um diagnóstico em estágio inicial, ela sabe que o cuidado não terminou com a retirada do tumor. Manter uma rotina de exercícios, respeitar os próprios limites e encontrar tempo para descansar tornaram-se prioridades.
Para alguém acostumada a se preocupar primeiro com a equipe, a família e as pessoas ao redor, essa mudança não veio naturalmente. “Eu tenho que ser prioridade para mim mesma na minha vida”, afirma. “É uma das coisas mais difíceis de fazer, porque a gente é criada para agradar os outros”, completa. Hoje, porém, entende que aprender a dizer “não” e reservar espaço para as próprias necessidades também faz parte do cuidado com a saúde.
Sua história mostra que o diagnóstico precoce começa muito antes da confirmação de uma doença: passa pela atenção aos sinais do corpo, pela escuta das preocupações das pacientes e pela possibilidade de investigar aquilo que parece fora do comum.
Para alguém que passou tanto tempo adiando um exame, o câncer trouxe uma mudança definitiva na maneira de enxergar a própria vida. “Isso poderia ter sido o começo de um fim, mas é só o começo de uma outra etapa.”
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