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A convite de CLAUDIA, escritoras refletem sobre temas da contemporaneidade e das vivências femininas

Sereia no lago

"Lembro dela tão singela com seus cachos bagunçados": a cordelista Jarrid Arraes escreve um texto com exclusividade para CLAUDIA

Por Jarrid Arraes 10 jul 2019, 10h00 | Atualizado em 2 jul 2026, 11h49
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 (Moazzam Ali Brohi/Getty Images)
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Lembro dela tão singela
Com seus cachos bagunçados

Um montinho de areia
E os brinquedos arrumados
O sorriso oscilante
Que mudava a todo instante
Refletia iluminado.

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Eu olhava da barraca
Esquecendo da leitura
Algo nela me encantava
Era como uma mistura

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De um sol que me sorria
Como um raio de alegria
Do oceano, criatura.

Foi então que eu percebi

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O que tanto desejava
Quando enfim juntou as pernas
Como a cauda que abanava
E fingindo ser sereia
Deslizava na areia

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Tão bonita que dançava.

Minhas férias acabaram
E a memória acompanhou
Muito tempo pensei nisso

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Como música ficou
E lembrei de ser criança
Mas não tinha a confiança
Que a sereia demonstrou.

Confiança de ser livre
De viver e interpretar
Mesmo com algum receio
Não deixar de experimentar
Nem olhar se tem risada
Se está sendo analisada
Decidir não se importar.

Veja só que coisa é essa:
Quando a gente vira grande
Tudo fica complicado
Muito sério e implicante
O problema está aqui
A vergonha está ali
Nunca é bom o bastante.

Mesmo no tempo de férias
Ir à praia é trabalhar
Uma angústia pela busca
Que jamais vai acabar
O corpo? Só o perfeito
Difícil é o conceito
Definir e alcançar.

Mas aqui neste cordel
Quero muito insistir
Que perfeito é somente
O que é livre pra existir
Pra ser pleno, se bastar
Por inteiro se aceitar
E por dentro evoluir.

Imagine que lindeza
Toda a gente se amando
Tudo quanto for mulher
No espelho admirando
Cada marca de história
Que se faz dedicatória
Como um livro completando.

Depois que compreendi
A mensagem da sereia
Escolhi outro destino
Bem distante da areia
Pela neve decidi
E no frio me encolhi
Pra me repensar inteira.

Foi na beira de um lago
Num silêncio apaixonante
Que me veio uma verdade
Tão profunda e relevante:
Ninguém tem que ser bonita
Se você não acredita
Eu explico neste instante.

Pois o corpo se transforma
E a tudo é vulnerável
Seja a moda ou o cabelo
E a estética comprável
Mas a personalidade
E a sua identidade
Fazem o todo memorável.

Se com admiração
Outra vou elogiar
Muito mais do que “bonita”
Hoje tenho pra falar
“Talentosa”, “inteligente”
“Corajosa e “competente”
Sei também priorizar.

Férias para a sua mente:
Isso possa conquistar
No verão e no inverno
Um amor pra transbordar
Porque só quem se aprova
Quem se ama e se adora
Tem espaço para amar.

Vou lembrar da garotinha
De suas pernas de sereia
E do seu desprendimento
Ritmado na areia
Também do gelado lago
Que inspirado ao meu lado
Fez da poesia inteira.

 

Jarid Arraes é cordelista e poeta, autora de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (Pólen) e de As Lendas de Dandara

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