“Só conheci uma mulher presidente de gravadora”, diz a cantora Céu
Vinte anos depois do primeiro disco, ela reflete sobre uma trajetória atenta aos próprios valores e a necessidade de fazer música com o coração
As canções de Céu convidam a uma pausa no tempo: a voz suave, quase sussurrada, gera uma atmosfera íntima, enquanto as letras acolhem e provocam na mesma medida. A experiência é sensorial, quase que palpável, já que as melodias misturam ritmos como MPB, soul, eletrônico e R&B, estabelecendo camadas de som inesperadas.
“Gosto de ver os arranjos como imagens. Quando vislumbro um disco, penso se ele é preto e branco, em sua subjetividade, se vai ser duro e se vai flertar com as máquinas”, explica. “Crio a partir das minhas vivências e dos meus sentimentos em relação às coisas que me atravessam. Posso até inventar uma personagem de mim mesma porque o ser humano é capaz de transbordar. É uma coisa meio louca.”
Quem a vê em cima dos palcos com roupas brilhantes e uma postura irreverente não imagina que, durante a adolescência, a música era uma espécie de inimiga. Isso porque a menina cresceu em um lar que abraçava os sons e não se enquadrava no padrão familiar da época.
“Nossa família era mais disfuncional, vamos dizer assim. E, de certa maneira, eu achava que a música era um pouco culpada disso”, revela. A ideia era ser desenhista ou dançarina. Mas, quando completou 14 anos, não negou o destino e escolheu que queria seguir os passos do pai Edgard Poças, responsável por compor para os consagrados Tim Maia, Djavan, Gal Costa, Roberto Carlos, Simone, entre outros. “Parecia que um bicho tinha me picado. Nunca mais mudei de ideia.”
Composição permanente
Ao fazer as pazes com a arte, entendeu ter sido moldada por ela. A produção do primeiro disco ensinou que não é fácil trabalhar com cultura no Brasil, mas também que esse caminho poderia render amizades profundas e até ajudá-la a atravessar uma depressão. “Comecei a escrever meu lugar no mundo e me encontrei cantora. Hoje vejo que meu pai foi meu primeiro professor.”
Desde o início da carreira, Céu decidiu que não seguiria as fórmulas do sucesso rápido ou as tendências do momento. Optou por construir uma obra autoral, guiada pela pesquisa estética e pelo desejo de questionar estruturas estabelecidas. “No geral, o mercado é um rolo compressor: algumas vezes você cede, outras não — mas tem que se equilibrar para não ficar marginal.”
A artista lembra que chegou a se reunir com um importante empresário da indústria internacional de shows, ligado a grandes bandas mainstream. Ele demonstrou interesse em sua obra, mas com a condição de que passasse a cantar apenas em inglês. Céu negou prontamente, mesmo sob pressão.
“A galera chutava meu pé embaixo da mesa para eu não recusar.” Esse compromisso com a própria visão criativa a consolidou como uma artista autêntica: acumulou quatro troféus no Prêmio Multishow, recebeu indicações ao Grammy Latino e, em 2020, venceu o prêmio na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, com o elogiado Apká!.
Céu e os limites
Apesar do reconhecimento, Céu reflete que ainda há um cenário de desigualdade estrutural na indústria, especialmente nos bastidores. “Só conheci uma mulher presidente de gravadora”, apontando para o fato de que os cargos de decisão continuam dominados por homens. Os dados não mentem: um estudo da USC Annenberg, em parceria com o Spotify, divulgou que, globalmente, apenas 6,5% dos produtores musicais eram mulheres até 2023, e menos de 3% estiveram envolvidas nas 800 músicas mais relevantes da última década.
O machismo estrutural também dificultou o olhar para si mesma: “Já me senti achatada em uma reunião em que queria transmitir uma ideia, mas não conseguia me expressar.” Para a cantora, estamos em uma etapa inicial de mudança — é preciso não só acelerar a representatividade feminina nos lugares de poder, como também reconhecer aquelas que vieram antes. “Existiram enormes compositoras no Brasil, mas elas foram completamente colocadas de lado ou até mesmo apagadas, como Alaíde Costa, Rosinha de Valença e até mesmo Chiquinha Gonzaga, a primeira a falar sobre direitos autorais”, comenta.
Outra virada de chave foi a maternidade, uma fase que a fez entender que é capaz de muito mais do que acreditava: “Me tornei mais interessante! Era muito tímida e passei a soltar a franga. Se sou capaz de gerar um ser humano, não vou ter vergonha de não ser assertiva.”
Mãe de Rosa, de 17 anos, e Antonino, de 7, ela ajustou o cronograma de viagens para garantir a presença durante a infância deles. “Quando eram bebês, eu levava junto nas turnês. Depois, entendi que era necessário um dia a dia com horários mais definidos. Hoje, meu jeito de maternar é equilibrar a casa com a minha profissão”, conta.
Para os pequenos, o discurso na hora de sair é que exercer algo que ama a transforma em uma pessoa melhor e mais feliz. “Acho que é importante para eles que eu seja verdadeira comigo”, completa.
Expansão intimista
Duas décadas depois do álbum que a revelou, Céu celebra a carreira com uma série de apresentações especiais — uma forma de revisitar sua trajetória musical e os ecos daquele primeiro registro, lançado em 2005. Ele a consagrou na medida que a tornou a primeira brasileira a assinar com o selo Starbucks Hear Music, nos Estados Unidos, abrindo portas para turnês pelo mundo.
Ao analisar o passado, é fácil reconhecer sua autenticidade: “Em 20 anos a gente pode mudar muito e pensar outras coisas. Sinto que sou a mesma pessoa, a mesma mulher, com o mesmo pensamento — mas em evolução”, reflete, emocionada.
Como parte dessas comemorações, a cantora participou do Tiny Desk Brasil, projeto intimista que estreou sua versão nacional em outubro deste ano. No episódio especial, ela revisita clássicos e canta sem edição. “A gente grava ao vivo e isso constrói uma fusão com a plateia — uma das coisas mais lindas que já vivi. Minha trajetória é um jeito de resistência e sinto que consegui levar minha forma de pensar a uma outra escala, podendo atravessar o público com o que está no meu coração.”
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